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Segunda, 20 de Agosto de 2018

Um dia por vez... Todo dia

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Escrito por Sileda Maria Franklin de Souza Qua, 09 de Dezembro de 2009 22:19

Eu tinha seis anos e me lembro muito bem quando meu pai me levou ao circo pela primeira vez. Foi em Crateús, onde passei minha maravilhosa infância. Naquela tarde, empolgada com todas as emoções do espetáculo, eu me candidatei e ganhei o concurso improvisado de frevo, que dancei no meio do picadeiro sem nenhuma cerimônia, pois quando menina eu me considerava uma grande artista – de circo, de novela, da música, da dança, da declamação  e de qualquer outra arte da qual eu tomasse conhecimento. Ganhei o prêmio oferecido pelo circo, uma lata de talco “Alma de Flores”, que em Crateús ainda nem tinha pra vender... e um enorme carão da minha mãe, extensivo a meu pai, “que eu já era muito apresentada, só faltava mesmo dançar em picadeiro de circo”. ...E eu, que pensei em voltar no outro dia pra ganhar outra lata de talco ou quem sabe até ser convidada para algum outro número especial, dado o meu grande talento como atriz e dançarina, dei por encerrada ali a minha carreira como artista circense...

Até  o dia em que, em maio de 2005, quase por acaso, fui parar na coordenação de um encontro de circenses em Tauá, Ceará, parte do I Festival dos Inhamuns – Circos, Bonecos e Artes de Rua,  realizado pela Secretaria da Cultura do Estado - Secult. Mobilizados pela Secult, proprietários, artistas e técnicos de cerca de 15 circos que itineravam pelo Ceará dispuseram de três dias para discutir questões ligadas à organização da categoria no nosso Estado, até então muito precária. O encontro, além de fomentar uma nova postura do pessoal de circo como categoria, favoreceu o desejo dos participantes de ir mais além e assumir compromissos com o crescimento e a qualidade dos seus espetáculos e dos seus circos.

Responsável por coordenar e organizar os trabalhos do encontro, a convite do então coordenador de Ação Cultural da Secult, Pedro Domingues, convivi três dias com aquelas pessoas às quais acabara de conhecer. Eram parte de um mundo sobre o qual eu nada sabia, artistas sobre os quais nunca ouvira falar e que, se durante o dia contavam incansavelmente sobre as dificuldades, misérias, desorganização, falta de apoio, despreparo e tantos outros problemas do circo, ao cabo dos trabalhos do encontro, já no final da tarde, iam apressados se transformar em palhaços, malabaristas, mágicos, contorcionistas e trapezistas e se apresentavam à noite, galhardamente, organizadamente, numa sincronia elegante de saltos e malabares, metidos em belos e brilhantes trajes, nas lonas do festival.

No segundo dia do encontro, lembrei do circo de Crateús, do prêmio no picadeiro, da lata de talco, e aí eu soube que voltara a ser circense.  Era uma opção movida pelo afeto e pela admiração que passara a nutrir de imediato por aquela gente. Sabia que a partir dali estaria completamente envolvida. Qualquer proposta de melhoria para os circenses que ali se desenhasse, contaria com o meu apoio e com a minha participação pessoal.

O Jacques, à época meu companheiro recente, foi o fotógrafo do festival, inclusive do encontro. Durante os três dias esteve presente silenciosamente, captando com calma cada movimento, cada olhar e eu observando como o interesse dele ia além de registrar palestras, debates ou discussões. Havia algo maior no seu olhar a partir dali, um vínculo que me parecia semelhante ao que eu sentia. À noite, nas lonas, esse pensamento voltava sempre quando, em meio a uma multidão que se comprimia para ver os espetáculos, eu avistava o fotógrafo, quase malabarista, quase acrobata, tentando colher do melhor ângulo as imagens de um número de mágica, de trapézio, de palhaço.

Já  tarde, quando a função terminava no circo e na produção do festival, a gente ficava conversando e ouvindo as incríveis histórias do Palhaço Trepinha, 81 anos, que fugiu com um circo quando tinha 12 e nunca mais saiu do picadeiro. Foi na  praça de Tauá, nas conversas sobre o circo, sobre a vida, que eu aprendi que, para o Jacques, tudo na vida “é um dia por vez”... finito, isso mesmo...

A partir daí venho acompanhando, “um dia por vez”, a dedicação e a disciplina dele para realizar esta que é a maior pesquisa de sua carreira como fotógrafo. Foram muitos e muitos domingos dedicados às idas aos circos mambembes que itineram pela periferia de Fortaleza. E nós, que antes do Festival dos Inhamuns sequer sabíamos da existência deles, estávamos agora em Fortaleza e, assim como desejamos, fazendo parte do dia a dia dos circos, o Jacques colhendo mais imagens e todos nós provocando mais conversas, estreitando mais os laços, através do projeto Circo de Todas as Artes, realizado pela Secretaria da Cultura da Prefeitura de Fortaleza - SecultFor, do qual passei a ser coordenadora.

Acompanhamos de perto o empenho dos circenses, após o encontro no festival, para se manterem organizados e coesos, resultando na criação da Associação dos Proprietários, Artistas e Escolas de Circo do Ceará - Apaece, entidade representativa da categoria já em funcionamento há mais de dois anos, da qual eu tenho a honra de ser sócia. Assistimos, com grande alegria, ao crescente interesse dos proprietários dos circos por melhorar a qualidade das suas lonas, dos seus equipamentos, e das suas programações. A organização da categoria e a demanda por mais apoio do poder público resultou na conquista de editais de incentivo específicos para a área, lançados pelo Governo do Estado através da Secult e pela Prefeitura de Fortaleza através da SecultFor. Muitos circos foram contemplados com os editais e souberam aproveitar a oportunidade para empreender melhorias nas suas estruturas, o que foi de grande valia.

A cada visita aos circos, nos últimos domingos de cada mês, muitas novidades, novas descobertas, melhorias, novos números, novos artistas. Os circos conseguiram manter as lentes do Jacques sempre atentas e em movimento. Com o olhar cada dia mais aguçado ele captava cada momento/movimento que antecedia ao espetáculo, quando a trupe inteira do circo se move em torno da venda de pipoca, algodão doce, pirulito e outras guloseimas, cujo “apurado” vai complementar a renda da família. Registrou também o instante em que começa a função, quando todos, atentos à sua hora de entrar no picadeiro, num repente, transformam-se: pipoqueiro em trapezista, vendedor de pirulito em palhaço, porteiro em malabarista,  bilheteira em bailarina, e por aí vai...

Tudo isso só foi possível graças à generosidade dos proprietários, dos artistas, das famílias circenses que abriram não só as suas lonas, os picadeiros e os camarins mas também os seus trailers, suas moradias improvisadas, que carregam junto com o circo e onde vivem famílias inteiras de várias gerações a circular pela periferia de Fortaleza, pelo interior do Ceará, num eterno tráfego de vida e sonho.

Nos últimos anos, Jacques registra o cotidiano dessas pessoas e a sua labuta na profissão de circense. Fotografa a rotina das famílias, antes e depois dos espetáculos, os preparativos para abrir o circo. Cada um cumpre sua tarefa na lida de dar início à função, começando pelo lado de fora da lona, chegando até o final do espetáculo, quando as luzes se apagam e os trailers dão abrigo a todos, até que tudo recomeça outra vez no dia seguinte.

Nesse meio tempo muitos chegaram, alguns partiram, outros simplesmente se afastaram. Poucos, muito poucos, desistiram. Fomos construindo este livro com a participação do querido Trepinha, o palhaço mais antigo em atividade no Ceará, seu Izaac, dona Rosa e seus filhos (World Circo), Motoka, Carlinha, Mariana (Circo do Motoka), Círio, Lúcia, seu filho Baratinha – o mais novo palhaço do Ceará até a chegada de Farofinha, de três anos – e seu avô e companheiro de cena, o palhaço Pimenta (Mirtes Circo), Cícero (Circo Meridiano), J.Gomes (Circo J.Gomes), Capucho (Capucho Circo), Lourdes (Tessalonisense Rei Circo), Garrafinha (London Circo), Reginaldo (Tropical Circo), Junior (Vip Circus), Flávio e seu pai, o capataz João Careca (Circo Show), Lino (Marlin Circo), o capataz Agenor, Jarileide e sua graciosa filha Jéssica,  mágica e dançarina (Circo Neves), seu Raimundo (Circo Gleyse), Seu Luiz  (Circo Alegria), Zulene e Seu Bicolino, o doce e elegante palhaço  que foi para o céu no meio desta caminhada.

Um dia por vez, o que as lentes registraram através do olhar sensível do fotógrafo  agora está aqui, neste livro que eu com muito orgulho ajudei a compor, escolhendo com o Jacques foto por foto, querendo editar todas mas compreendendo que o espaço finito destas páginas jamais comportaria o universo incrivelmente grande no qual adentramos.

Junto às fotos estão textos de circenses como Ermínia Silva, historiadora, pesquisadora e autora de livros sobre o universo do circo; Silas de Paula, fotógrafo e amigo do Jacques desde o início da carreira há 25 anos; Romeu Duarte, arquiteto e urbanista; José Alves Netto, produtor e diretor teatral; Fernando Piancó, ator, diretor e produtor cultural; Oswald Barroso, poeta e dramaturgo; e a jornalista Izabel Gurgel. Generosos amigos que prontamente atenderam ao nosso convite para compartilhar esse trabalho. A todos eles o nosso sincero agradecimento por podermos agregar maior valor ao livro através de seus escritos.

Eis então aqui mais um belo trabalho do fotógrafo Jacques Antunes, comemorando os seus 25 anos de profissão. Reconheço em cada foto sua sensibilidade para distinguir o momento certo de captar não somente uma imagem, mas o sentimento de cada artista, o desejo de cada um de se deixar eternizar no momento mágico do picadeiro.  Pelo olhar do fotógrafo, vamos encontrar ainda o registro de um cenário para além do picadeiro, para além da ribalta. A montagem das lonas, o cotidiano das famílias, o interior de suas moradias improvisadas, o longo percurso pelos arredores da cidade, por diversos bairros cuja paisagem, muitas vezes carente de beleza e viço, se enche de alegria e pujança quando se instala o circo.

Desejo que todos possam enxergar neste livro não somente a beleza das fotografias mas um espaço que  possa projetar os circos mambembes e seus grandes artistas que incansavelmente, eternamente, um dia por vez, trafegam pela periferia de Fortaleza e pelo interior do Ceará, invisíveis aos olhos da maioria da população, fincando junto com os mastros, a lona e o pano de roda, a certeza de que vale a pena sonhar da forma mais intensa, como diz Izabel Gurgel quando cita Guimarães Rosa em Grande Sertão Veredas: com coragem e alegria, com alegria e coragem.
 

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